ENTREVISTA A JOE SATRIANI
Entrevista gentilmente cedida pela revista Arte Sonora - a revista que te dá música!
Por: Hugo Guerreiro
A entrevista realizou-se no dia 30 de Abril, no hotel onde o mestre estava hospedado. O tempo
dispensado para entrevistas foi escasso (apenas 15 minutos por órgão de comunicação social),
mas tentámos recolher o máximo de informação possível junto do guitarrista que, além de ser
acessível e ter respondido às questões colocadas, demonstrou contentamento por ser
entrevistado por uma revista técnica.
Com o passar dos anos, alguma vez mudou o teu sentimento ou maneira de ver a música?
A maneira como tocavas quando foi gravado o “Not Of This Earth” e a maneira como sentias a
música nessa altura mudou em relação ao “Professor Satchafunkilus and the Musterion of Rock”?
Bem, tecnicamente, naquele primeiro álbum, era como um miúdo num estúdio de gravação, a
tentar descobrir o que era possível fazer. Sabes, isso já foi há muito tempo, há cerca de 22 anos.
E 22 anos é muito tempo. O que nós pensávamos naquela altura ser possível fazer para se gravar
um álbum a solo é muito diferente do que pensamos hoje. Nós não tínhamos muito dinheiro e as
poucas pessoas que tínhamos disponíveis para realizar a gravação do primeiro disco tinham de ser
bem aproveitadas. Logo, foram tomadas muitas decisões técnicas apenas baseadas no orçamento
disponível, pois não podíamos passar muitas semanas com uma banda em estúdio.
Foram usadas caixas de ritmos por que eram a única coisa para a qual o orçamento chegava…
Nós não tínhamos muita fita disponível para takes alternativos, logo essa foi uma das razões paratermos que usar caixas de ritmos, porque só precisamos de um take (risos), e nesta altura
estávamos a gravar em fita de 2” e só tínhamos duas bobines. Estávamos a lidar com um
orçamento de 5000 dólares.
Já nessa altura era muito difícil esticar esse orçamento para se poder realizar a gravação do disco.
E sentíamo-nos sortudos por estarmos em estúdio, então tínhamos a tendência para gravar
músicas com uma grande variedade de sons, e isso teve a ver com o facto de ser muito estranho
nos encontrarmos dentro dum estúdio, pois isso não significava que se passasse alguma coisa…
não havia aqui carreira nenhuma, nós não tínhamos sucesso e não tínhamos expectativas de sucesso.
Por isso é que fizemos o que queríamos e o álbum saiu a soar tão estranho. Nas gravações fizemos
coisas erradas de propósito, porque simplesmente sentimos uma espécie de liberdade ao sermos
ignorados. Por outras palavras, se estiveres a fazer um disco e souberes que ninguém o vai passarna rádio, não tens que o fazer “radio friendly”. É como um cantor quando está a escrever letras
e sabe que ninguém o vai ouvir… pode fazer e dizer o que quiser (risos).
Era mais ou menos isto que sentíamos, por isso é que fizemos as coisas de maneira tão estranha,
só porque percebemos que o podíamos fazer. Agora ninguém nos deixaria fazer.
Mas agora, vindo de 1986 para 2008, às vezes não te apetece voltar a fazer coisas estranhas?
Sabes, é engraçado, percebemos que temos aquela liberdade incrível em sermos ignorados, e em
não ter sucesso nenhum. Como tinha dito antes, sermos ignorados é a melhor liberdade!
Mas também te apercebes que qualquer que seja o estado de espírito em que te encontres, está
enraizado nele uma espécie de barreira. Tudo depende da maneira como pensas. Mesmo com
todo o dinheiro do mundo isso não significa que faças um bom álbum, mas se em vez de teres
um dia tivesses uma semana, talvez as coisas pudessem ser feitas de uma maneira melhor.
Olhando agora para o avanço da tecnologia, uma das coisas que nos teria ajudado era o Pro Tools.
Isto porque é uma ferramenta de edição não destrutiva, que nos permite gravar mais de 150 takes
– e mesmo que isso nos atrase o único problema que nos coloca é o de escolhermos qual é que
vamos usar (risos). E permite-nos trazer um amigo para tocar alguma coisa, e deixá-lo tocar, criar
algo em vez de o forçar a fazer tudo num só take que ele poderia a vir fazer bem melhor do que o
que tinha feito. Podemos aproveitar e dizer: “experimenta todas as ideias que tens!”. Tudo isto só
vai depender do espaço que tens em disco (risos).
Mesmo assim vai-nos levar algum tempo, mas permite ao produtor – ou ao artista que se está a
produzir – usar os outros músicos mais eficaz ou artisticamente. Isto porque podem experimentar
todas as ideias, por mais loucas que sejam. Logo, o Pro Tools permitenos captar essa essência e
se houver algum problema resolvê-lo e trabalhar melhor esse take. Logo, toda esta tecnologia
permitenos ser mais criativos. Mas nunca descurando o tempo despendido para este tipo de
experiências, pois é preciso alguma estrutura, já que geralmente as pessoas são preguiçosas.
A tendência está a ser tocar menos e gravar mais…
É precisamente isso que eu tento explicar quando falo em disciplina. O Pro Tools não nos ajuda
a tocar mais ou menos, ou até mesmo melhor. É simplesmente um programa, apenas isso.
Portanto, é o factor humano que é importante. As pessoas são simplesmente humanas, preferem
não fazer nada a ter que fazer alguma coisa. E temos sempre que lutar contra isso, quer estejamos
a trabalhar com fita ou com o Pro Tools. Eu tenho que ter a guitarra sempre ligada, e não desligá-la,arrumá-la e ficar ali a olhar para o nada. Eu estou sempre a lembrar-me que aquilo é apenas um
meio de gravação e é apenas para isso que serve.
Por acaso usaste o teu pick up de assinatura Mo Joe ou teu novo pedal o Satchurator?
Oh, claro que sim! Os Mo Joe estão em todas as guitarras que usei na gravação deste álbum e
já tinham sido instalados na minha guitarra aquando da minha ultima tour. Eu nem usei muitas
guitarras neste álbum: usei duas (Ibanez) JS 1000 e uma JS 1200… isto para gravar o disco todo.
Tive vários protótipos do meu pedal que estavam ainda em testes enquanto ia gravando o álbum,
e foram usados na “Andaluzia”, “Asik Vaysel”, “Out Of the Sunrise”, e em mais algumas que não
me lembro, mas foram sempre usados de maneira diferente. Alguns com a coluna “micada” outros
com simuladores de amplificação e com diferentes “cabeças” de amplificador.
Até que ponto um guitarrista que compre o “Satchurator” consegue ficar perto do teu som?
Oh, sem dúvida que fica, pois é o meu som de assinatura. Vendo as coisas da minha perspectiva,
a coisa torna-se muito simples. Cada vez mais viajamos pelo mundo inteiro em tour e os custos
são astronómicos, certo? Por exemplo, quando cheguei aqui a Portugal não trouxe os meus
amplificadores, os Peavey JSX. Mas quando cá cheguei já tinha uns iguais (cedidos pela marca) aos
que tenho em casa, que são exactamente os que se podem comprar nas lojas. Eu dependo do som
do amplificador que eu ajudei a criar, mas é o som que as pessoas podem encontrar indo à loja
comprar. O mesmo vai acontecer ao Satchurator quando for posto à venda em Julho. E, claro, o
mesmo se passa com o meu modelo de guitarras, pick ups, etc. Basta-me ir a uma loja e alugar o
equipamento ou comprar e o som vai ser o mesmo!
Foi usado mais algum tipo de efeitos além do Amplificador JSX e do Satchurator? Porque eu sei que
usas o Whammy 4 da Digitech… Quais são as diferenças do teu rig ao vivo e em estúdio?
A grande diferença é que num rig de estúdio só usas, ou melhor, só ligas o que vais usar para gravar,
certo? Isto porque sempre que ligas mais alguma coisa o som vai-se alterando pelo caminho...
E começas a pensar: se estou a gravar, porque é que vou necessitar de toda aquela degradação
do som e ruído? Se estou a tocar uma música em que só uso distorção, porque é que hei-de ter os
pedais Wha-Wha ou o de Delay ligados? Muitas das minhas gravações são feitas apenas com a
guitarra ligada ao amplificador…
Mas se mais tarde decidires que queres adicionar ali um efeito, é muito melhor adicioná-lo do que
usar plug ins e ter todo os equipamentos desnecessários ligados para adicionarem ruídos. Mas
claro que ao vivo as coisas funcionam de maneira diferente. Tocamos música atrás de música e eu
toco cerca de 5 a 6 partes de guitarra completamente diferentes, com setups completamente diferentes,
e temos de ter uma perfomance muito convincente, e ter muitos pedais… há quem goste de usar racks
cheias de equipamentos e ter mais pedais ainda… O espectáculo é tão diferente… Nós fazemos de tudo
para que o espectáculo seja convincente e sem falhas.
Quando é que as tuas guitarras começam a ser equipadas de fábrica com o teu pickup de assinatura?
Isso é algo entre a Ibanez e a Dimarzio, mas se fores ao site da Dimarzio já podes comprar os
PAF Joe, PAF Fred e o Moe Joe. Eu encorajo as pessoas a mudarem de pickups mais vezes do
que a darem espectáculos. É uma maneira importante e fácil de as pessoas verem que a guitarra
eléctrica é um instrumento mais versátil e flexível do que o que se pensa. Deve-se mudar os pick ups
sempre que se possa, pois é uma maneira mais barata de se ter um bom som de guitarra.
Quanto à Ibanez, não sei quando é que o Moe Joe virá montado, pois eles nem sempre montam os
pick ups novos de origem.
Estou a perguntar isto por que notei que a Ibanez tem um tremolo novo chamado ZR2. E as tuas
guitarras trazem o Edge Pro. Alguma razão em especial?
Eu simplesmente gosto da tensão e do toque que ele tem. Eu tenho várias guitarras com esse tremolo,
o ZR2, e trabalha bem, mas eu continuo a preferir o Edge Pro.
Vamos à última pergunta, pois o meu tempo está a acabar... Em 1979 tocavas nos Squares e em
2009 faz 30 anos. Vamos ter uma reunião ou o lançamento de algum material escondido?
Bem, a reunião não vai ser possível, pois entretanto o nosso vocalista morreu…
Mas contigo a cantar, claro.
Eu não o conseguia fazer… Mas sabes que o Jeff Capitelli era o meu baterista nos Squares e ainda
hoje toca comigo, e tocou comigo quase em todos os meus discos a solo… Ainda hoje tocamos juntos,
ele anda comigo em tour.
Mas decerto existem por aí umas músicas escondidas…
Nós temos todas a gravações originais dos Squares, algumas até são ok, mas as outras nem por
isso (risos). Quando o fizermos vamos fazer como deve ser!