Entrevista gentilmente cedida pela
- a revista que te dá música!
A entrevista realizou-se no dia 29 de Outubro de 2008
por Hugo Guerreiro, João Paulo Aça, Nero e Paulo Basílio
Após treze anos afastados dos Extreme, durante os quais tiveste noutros projectos e tiveste
uma carreira em ascenção como produtor, como surgiu a ideia de reunir e gravar um novo
álbum?
Um dos principais motivos para fazer isto agora é porque... bom, durante os anos em
Extreme, nunca tivemos pausas, foi sempre álbum, digressão, álbum, digressão, e penso
que terá sido daí que surgiram os problemas. Então, em vez de termos tirado de três a seis
meses entre os álbuns, demos connosco com um espaço de treze anos (risos), também
para experimentar outros projectos. Muitos dos quais estou muito orgulhoso e que me
entusiasmaram imenso, mas por exemplo Satellite Party, com o Perry Farrell, não foi uma
experiência tão boa, para mim foi mesmo mau, não estive rodeado de pessoas muito boas
e esse projecto final foi o que me fez perceber que se calhar Extreme não era assim tão
mau, as coisas não eram tão más e tínhamos mesmo qualquer coisa especial que o tempo
não apagou.
Ouvindo este novo trabalho fica-se com uma sensação de que vocês tinham "fome" de
fazer música juntos.
Bom, já havíamos estado juntos há uns quatro anos atrás, para tentar alguma coisa, fazer
dois ou três concertos por diversão, para fazer algo para os fãs e para os sítios onde
vivemos. E quando o fizemos foi excelente, os fãs foram magníficos, os concertos foram
muito bons, mas havia algo que parecia que não batia certo e acho que percebemos que
não podíamos fazer isto pelas razões erradas, por dinheiro ou por nostalgia. Que tínhamos
de fazê-lo pela música, sempre tivéramos músicas e álbuns excitantes. Ao falar com o
Gary passei-lhe a ideia que no futuro só faria sentido se fosse assim, fazer as coisas pela
música e isso iria estabelecer se o faríamos ou não: "vamos para um estúdio, ver se ainda
temos aquela química ou alguma magia guardada, se conseguimos fazer algo que valha a
pena mostrar e partilhar com as pessoas e faremos uma digressão e um álbum".
Então fechámo-nos a trabalhar e basicamente em duas semanas conseguimos vinte e
cinco músicas, e foi muito entusiasmante.
fotos de João Robalo
[1. Nesta tour, Nuno Bettencourt revela a sua nova "arma", que provou estar à altura do
guitarrista: o amplificador de assinatura da Randall, que com uma estética singular,
mostrou uma sonoridade bastante rica e poderosa.
2. Na segunda foto vemos um pormenor de captação do amplificador de guitarra, com SM57
da Shure, complementando com um M421 da Sennheiser.]
Como surgiu a parceria com a Randall?
Bom, a Randall e a Washburn estão sobre a mesma tutela, portanto já conhecia bem as
pessoas. Nunca tinha assinado um amplificador e as coisas correram bem, deu tudo certo.
Tu e a Washburn têm um "casamento feliz", por assim dizer, pois já desenvolveste muitos
modelos. Qual deles é o teu favorito?
Primeiro que tudo um "casamento feliz" é coisa que não existe (risos). Bom, mas já
estivemos juntos muitos anos, depois houve uma separação, agora voltámos a trabalhar
juntos, no entanto os modelos principais sempre foram as guitarras que ainda uso e que
tenho usado durante 20 anos.
fotos de João Robalo e João Paulo Aça
[1. Técnico de guitarra prepara os modelos de assinatura do Nuno Bettencourt, antes do
concerto.
2. O stand das "N", todos os modelos de assinatura da Washburn.
3. Nuno é bastante acarinhado pelo nosso povo.]
Durante este tempo o teu rig sofreu alterações substanciais?
Não, nem por isso. Creio que quando ouves os álbuns é sempre um som muito directo com
um bocadinho de eco. Às vezes procuro um efeito estranho para uma música ou outra, mas,
basicamente, uso apenas um pouco de eco, um octave e algumas vezes um pouco de
phaser, mas, de facto, é só isso.
foto de João Robalo
[Não escondemos alguma surpresa ao descobrir que Nuno apenas usa uma pedaleira GT8,
para o processamento de efeitos, e um pedal Super Octave 3 da Boss.]
Como foi trabalhar neste álbum em que foste músico, engenheiro de som e produtor?
Basicamente detestei cada minuto (risos). Foi por necessidade. Não sou um grande fã de
gravar álbuns, não gosto muito do trabalho de estúdio, a sério, prefiro estar em palco.
Gosto de ouvir o álbum quando está terminado, mas para mim é sempre uma chatice
enfiar-me em estúdio.
Quanto tempo estiveram em estúdio?
Gravámos em cerca de um mês, depois com as misturas... creio que tudo junto foi cerca
de três meses.
Foi difícil gravarem juntos após treze anos?
Nem por isso, às vezes quando fazes um intervalo é benéfico, quando regressas vens
mais entusiasmado. Percebemos que quando vens para um álbum logo a seguir a uma
digressão não vens com tanto entusiasmo, porque não tiveste nenhum tempo para ti.
Eu sei que treze anos são imenso tempo, mas julgo que treze anos, treze músicas, dá
uma canção por ano. Não é mau.
Mas sentiste cumplicidade, após tanto tempo, como referiste? Cada vez que entravas em
estúdio e pegavas na guitarra sentias união?
Sim, creio que sim. Sabes, o que penso que acontece é aquele ciclo de quando és uma
banda jovem, e especialmente uma que tem sucesso, e ninguém te treina e te explica o
que vai acontecer em cinco anos seguidos. Tudo o que fazes até aí é estares com os teus
amigos a tocarem música e na paródia juntos. E, de repente, as boas notícias são que tu
tens sucesso, que fazes algum dinheiro e estás em digressão; as más notícias são que
isso acontece tão rápido que perdes a perspectiva da diversão que é estar em palco -
essa é a parte divertida. Depois tens todos os dias a viajar, todos dentro do autocarro,
cinco ou mais entrevistas por dia - tudo bem, isso não é um trabalho duro, como se
estiveres na construção civil ou assim - mas mentalmente começas a esquecer por que
os estás a fazer, e que era apenas pela música, sabes?
foto de João Paulo Aça